O nono filme de Paul Thomas Anderson é caótico e absolutamente adorável. Um conto de amadurecimento com o tipo de nostalgia que se manifesta como memórias: confuso e aparentemente sem forma, mas de alguma forma deliciosamente profundo.

Licorice Pizza é essencialmente uma comédia romântica não convencional, estrelada por dois jovens excêntricos, do tipo que antes parecia empesáveis como protagonistas de comédia romântica.

O estreante nas telas Cooper Hoffman (filho de Philip Seymour Hoffman que morreu em 2014, vítima de overdose e um colaborador frequente de PTA) é Gary Valentine, um colegial com um corte de cabelo estilo Brian Wilson que também é ator mirim e empresário empreendedor. “Onde estão seus pais enquanto tudo isso está acontecendo?” pergunta Alana (a estreante Alana Haim), a jovem de vinte e poucos anos que Gary conhece quando ela está trabalhando como assistente do fotógrafo de sua escola, e que ele declara ser “a garota com quem vou me casar um dia”, apesar de sua insistência que “não somos namorado e namorada”.

Ele é apenas um garoto, mas se move pelo mundo com a confiança de um empresário de meia-idade; ela é adulta, mas menos experiente e mundana do que pensa.

Com a estranheza dessa diferença de idade sempre presente, Anderson interpreta isso como um romance excêntrico até o fim. Há inocência no relacionamento mal definido, como se nenhum deles soubesse estar um com o outro: ambos jovens demais para descobrir como continuar, mas inegavelmente unidos, circulando um ao outro como ímãs de cargas opostas. É totalmente romântico, no sentido mais estranho e caótico, o que mais ilustra essa descrição é uma cena em que eles compartilham um telefonema em completo silêncio, Anderson encontra tensão em sua intimidade sem eles precisarem dizer uma palavra.

LICORICE PIZZA - The Fargo Theatre

Não há reviravoltas na trama, o enredo avança aleatoriamente, mas sempre em uma direção: rumo ao gradual encontro de Gary e Alana, apesar de todos os obstáculos em seu caminho. O principal deles é Alana saber que ela é 10 anos mais velha que Gary, uma diferença de idade que parece tornar seu relacionamento embaraçoso e ridículo.

Talvez o aspecto mais convincente desta história seja a naturalidade desses atores de primeira viagem. Nenhum deles tem a estética plástica prevalente dos filmes americanos. Gary, cheio de espinhas e gorducho, não se sente lisonjeado com a moda da época, mas tem um brilho perpétuo nos olhos. Alana também não é uma grande beldade, mas neste filme ela é tratada como um objeto de desejo universal. Não é só Gary que a acha atraente, e sim, todos os homens que ela encontra. Inclusive, o sexo é o subtexto sempre presente nesta história, mas nunca se materializa.

Você acha estranho eu sair com Gary e seus amigos o tempo todo?” Alana pergunta a irmã em um momento de reflexão, imaginando como ela acabou com um bando de garotos de 15 anos. “É o que você pensa que é”, vem a resposta – algo que tendemos a concordar com o desenrolar da trama. Alana, apesar de já adulta, se prende as aventuras do grupo de Gary em uma tentativa falha de ignorar suas responsabilidades. Como se pudesse voltar a ser criança. E ela é boa nisso.

Embora Licorice Pizza seja realmente um jogo duplo, em que Gary e Alana, dois relativamente desconhecidos, dominam todas as cenas, o filme é notável por um elenco de apoio de estrelas. A comediante Maya Rudolph – e esposa de Anderson – vive uma produtora e velha conhecida de Gary; Sean Penn interpreta Jack Holden, uma versão mal disfarçada de um envelhecido e delirante William Holden; Bradley Cooper é Jon Peters, o famoso cabeleireiro de celebridades que se tornou produtor de Hollywood, e namorou Barbra Streisand (e foi casado com Pamela Anderson por 12 horas!). Tanto Penn quanto Cooper entregam performances que roubam a atenção e arranca gargalhadas do público, principalmente por serem homens desequilibrados devido à sua imersão na indústria cinematográfica.

One Indelible Scene: When a Woman Takes the Wheel in 'Licorice Pizza' - The  New York Times

O elenco é formado por pessoas que passaram a vida nesse meio, que tem seu tipo único de normalidade. O próprio Anderson é um produto deste mundo e essas pessoas são sua tribo. O filme em si, tem o nome de uma franquia de lojas de discos do sul da Califórnia que floresceu nos anos 70. Seja trabalhando com veteranos talentosos ou recém-chegados brilhantes, Anderson tem uma maneira única de persuadir o melhor deles.

A visão dourada e cintilante de Paul Thomas Anderson do San Fernando Valley dos anos 1970 em “Licorice Pizza” é tão sonhadora, tão cheia de possibilidades, que é como se não pudesse realmente existir. Com suas longas caminhadas e conversas de horas mágicas e seu senso de aventura em cada esquina e em cada quarteirão, é um lugar onde tudo pode acontecer da noite para o dia.

Anderson usufruiu de todas as suas técnicas emocionantes e grandiosas na direção, bem como sua afeição pelo drama como escritor, e as aplicou para contar uma história surpreendentemente doce. PTA é um contador de histórias habilidoso que nunca se demora muito em uma cena ou se esforça para ser profundo. Seus personagens nunca parecem dizer muito ou pouco. A câmera nunca fica mais tempo do que o necessário em uma cena, assim, ele deixa o espectador com suficiente para digerir, mas nunca tanto que se torne um fardo.

Uma longa cena, em que Gary entra no Hollywood Palladium para lançar sua empresa de colchões d’água ,lembra o início de Boogie Nights e o final de Trama Fantasma, aqui temos Anderson, servindo como seu próprio diretor de fotografia novamente (desta vez ao lado de Michael Bauman), que mistura admiração e melancolia.

Licorice Pizza é um banquete visual repleto de diálogos afiados, vinhetas cômicas hilárias e atuações brilhantes e um dos melhores filmes de 2022.

O longa chega aos cinemas brasileiros em 17 de fevereiro!