Texto por Guilherme Silva

Dirigido por Lana Wachowski, que também assina o roteiro em conjunto com David Mitchell e Aleksandar Hemon, dessa vez sem a parceria consagrada com a sua irmã Lilly Wachowski, The Matrix Resurrections se passa 20 anos após os eventos do último filme com Neo (Keanu Reves) vivendo sob o seu nome civil ‘’original’’ como um renomado programador de jogos, Thomas Anderson, e sem se lembrar do que aconteceu no passado. Em paralelo a isso ele tem crises que acredita ser Transtorno de estresse pós traumático e para controlar isso Neo frequenta o consultório do Analista (Neil Patrick Harris) que como tratamento prescreve-lhe estranhas pílulas azuis.

Vários elementos fazem de The Matrix Resurrections um bom filme, que desde o seu início começa de forma energética e intrigante, contudo é impossível não citar, não como principal, mas disparadamente o que mais se destaca é a sua metalinguagem em relação a tudo que envolve o seu universo e como isso desenvolve para que o filme não se leve tão a sério.

Desde a sua introdução até os créditos, através dessa metalinguagem muito bem encaixada, o filme se satiriza em vários momentos e em ponto chaves de uma forma orgânica que além de permitir boas risadas e momentos memoráveis em nenhum momento se torna algo forçado ou fora de controle. Além disso, esse mesmo recurso proporciona ótimos momentos nostálgicos aos fãs da trilogia, que não se restringem a pequenas referências cinematográficas, mas também a diálogos marcantes e de reencenações de momentos históricos marcados na história da franquia como a icônica sequência da pílula azul e vermelha.

The Matrix Resurrections

A forma extremamente controlada e dosada de como isso é introduzido é fundamental para que não se torne uma muleta narrativa e logo algo repetitivo e cansativo, assim transformando o que era para ser um recurso em um problema de roteiro. O que infelizmente não acontece em alguns momentos no segundo ato do filme, isso porque mesmo iniciando a história de maneira instigante reinserindo criativamente o espectador ao universo de Matrix e plantando uma dúvida na sua cabeça, algo que será o fio condutor por toda a história, a trama adentra e tenta desenvolver algumas subtramas e conflitos que são confusos e não levam a lugar nenhum ou ajudam na evolução e no desenvolvimento do arco principal.

Possivelmente a tentativa aqui foi de se aprofundar mais no universo e mostrar de forma mais detalhada as mudanças que houveram no mundo fora da Matrix nesses 20 anos que se passaram, no entanto o roteiro acaba se enrolando e gastando muito tempo com essas subtramas e assim deixando boa parte do segundo ato arrastado e com alguns momentos sonolentos, algo que se resolveria facilmente enxugando boa parte das cenas e mantendo apenas duas ou três que realmente agregam ao arco principal e dão sequência ao desenvolvimento da história.

Mesmo com o excesso de informações o segundo ato ainda assim consegue manter o bom ritmo estabelecido no início do filme, isso muito por conta do ótimo elenco que além dos seus protagonistas Neo (Keanu Reves) e Trinity (Carrie-Anne Moss) que continuam com a mesma essência e carisma dos filmes originais, um destaque para Carrie que mesmo com menos tempo de tela quando entra em cena tem a mesma relevância e presença de Neo, o filme ainda conta com um ótimo casting de apoio com Yahya Abdul-Mateen II (Morpheus), Neil Patrick Harris (O Analista), Jonathan Groff (Agente Smith) e Jessica Henwick (Bugs) que apesar de não terem um grande desenvolvimento de personagem tem carisma e convencem como tripulação e antagonista/vilão.

Crítica | Matrix Resurrections

Vale a observação positiva principalmente a Yahya Abdul-Mateen II e Jonathan Groff que tem a difícil missão de dar uma ‘’nova cara’’ aos personagens clássicos da franquia Morpheus e Agente Smith. Ambos entregam ótimas interpretações que não devem nada as atuações originais, com uma leve vantagem para Groff que mesmo com algumas mudanças sofridas pelo seu personagem, mantém e consegue transmitir a estranha e silenciosa sensação de perigo que é passada quando o Agent Smithg entra em cena, em alguns momentos superando até o principal antagonista vivido por Neil Patrick Harris.

O mesmo já não acontece com tanta precisão com o Morpheus de Abdul-Mateen, que apesar de trazer uma boa pegada com glamour e irreverência que a interpretação mais sisuda de Laurence Fishburne não tinha, desliza ao não conseguir muitas vezes passar a imponência e relevância que são marcas registradas e essenciais do personagem, e sendo justo, muito mais por conta do roteiro do que pela entrega do ator.
The Matrix Resurrections no geral é um ótimo filme e uma boa continuação que da nova força para uma franquia que encerrou seu último ciclo em baixa.

É melhor que seu antecessor e se equivale em qualidade técnica aos dois primeiros filmes da trilogia, e apesar de alguns deslizes no roteiro e no desenvolvimento personagens se tiver pé no chão e saber dosar bem suas ambições principalmente no que diz respeito a continuações, pois o final ‘’em aberto’’ desse longa, o que considero um acerto, abre margem para isso, tem um futuro promissor e tudo para aumentar ainda mais a grandiosidade dessa obra como um todo.