Também premiado no Olhar de Cinema, filme marca a estreia de Fellipe Fernandes na direção de longas, e traz o rapper Okado do Canal como protagonista

RIO DOCE, primeiro longa metragem de Fellipe Fernandes, é o grande vencedor da Première Brasil Novos Rumos do Festival do Rio. O longa já havia ganhado o principal prêmio no Olhar de Cinema: Festival Internacional de Curitiba, vencendo o Prêmio Olhar e também como melhor longa brasileiro das Mostras Competitiva, Outros Olhares e Novos Olhares.

O personagem principal é Tiago, interpretado pelo rapper Okado do Canal, que mora em Rio Doce, periferia de Olinda, e leva uma vida dura. Pai de uma menina pequena, ele descobre a identidade de seu próprio pai, ausente em toda sua vida, quando é procurado por uma de suas meias-irmãs que também lhe conta que o homem morreu. A partir dessa descoberta, a vida desse rapaz se transforma, e ele passa a questionar sua própria identidade.

Relações familiares, paternidade e a paisagem urbana estão ao centro do longa, cujo roteiro também é assinado pelo diretor. “O argumento original do filme é de 2014, e passou por diversas transformações, mas sempre esteve presente o desejo de fazer um retrato íntimo de um cotidiano doméstico em diversas camadas narrativas nas quais questões sociais se misturam com dramas familiares  já era o que guiava a construção do filme e assim permaneceu até a finalização”.

Olhar de Cinema: Rio Doce e outros filmes

Fernandes explica que Okado foi fundamental no desenvolvimento do personagem e do filme. “A partir do momento que decidimos que ele interpretaria o protagonista, escrevi uma revisão do roteiro trazendo elementos que estavam diretamente relacionados com identidade e as experiências de vida de Okado, colorindo o contorno que já existia e aproximando os universos.

Além disso, a preparação do elenco permitiu uma sintonia maior entre atores e atrizes, o que contribuiu para o sucesso de RIO DOCE. “Ao longo da preparação de elenco essa construção coletiva foi se consolidando. Não só com ele, mas com todo o elenco: a versão final do roteiro, aquela que foi filmada, foi construída a partir dos ensaios e das dinâmicas de criação que criamos com os atores/ atrizes e preparadores de elenco. Nesse sentido, Fábio Leal e Carolina Bianchi exerceram papéis fundamentais no sentido de facilitar a comunhão desse processo criativo.”

O diretor já trabalhou de assistente com importantes cineastas como Kléber Mendonça Filho (em “Aquarius”, e “Bacurau”, codirigido por Juliano Dorneles), Cláudio Assis (“Piedade) e Tavinho Teixeira (“Sol Alegria”), confessa que essas experiências foram fundamentais para seu próprio trabalho como diretor. “Para mim, que nunca estudei a prática de cinema de maneira formal, pensando na realização, esses trabalhos funcionaram como uma escola. A possibilidade de poder acompanhar de perto o processo criativo desses realizadores me ajudou a entender as possibilidades de caminhos a serem percorridos.”

Responsável pelos curtas “O delírio é a redenção dos aflitos”, exibido em Cannes, e Tempestade, exibido em Tiradentes, o diretor conta que a estreia em longas não lhe trouxe dificuldades pelo formato. “Acho que pesou mais o fato de eu ter pouca experiência anterior na direção de fato do que exatamente o formato dos filmes que compuseram essa experiência. O fato de estar cercado de amigos, pessoas com as quais eu trabalho desde 2007, quando comecei a fazer assistência de direção, fez tudo fluir de uma maneira mais tranquila”.

RIO DOCE, esteticamente, é bastante marcante com uma fotografia que chama a atenção por suas cores e textura. O cineasta explica que a parceria com o diretor de fotografia Pedro Sotero, e o diretor de arte Thales Junqueira foi fundamental nisso. “Nosso trabalho foi no sentido de construir essa textura específica que reforçasse a existência do meio. A ideia era assumir uma certa artificialidade orgânica na criação da imagem, trabalhando as composições de luz e cores para a criação de textura, em contraponto aos diálogos e às atuações naturalistas, encenados em espaços e paisagens também cotidianos e banais.”

No filme, Fernandes apontas questões estruturais da sociedade brasileira contemporânea. “Acompanhamos a jornada emocional de um homem negro periférico em crise com o modelo de masculinidade que se vê reproduzindo, sufocado pela solidão, dificuldade de comunicação, pressão social e falta de compreensão dos próprios sentimentos. Tudo isso em meio à sua relação com três gerações de mulheres e diante de um conflito de classes.”

RIO DOCE será lançado no Brasil pela Vitrine Filmes.