Dirigido por Lô Politi, ator divide a cena com Everaldo Pontes e a estreante Malu Landim, num filme sobre o homem contemporâneo

Rômulo Braga se consagrou como o Melhor Ator da Mostra Competitiva de Longas da Première Brasil no Festival do Rio por seu trabalho em SOL, no qual interpreta Theo, um homem que precisa se reconectar com seu pai (Everaldo Pontes).

Eles não se veem há anos, mas tudo muda quando o pai adoece, e parece estar com os dias contados. Porém, ele tem uma melhora súbita, e os dois precisam volta a conviver. Será a filha pequena (Malu Ladim) de Théo que acabará servindo de elo entre os dois.

Quando o pai, que já estava em tese morto, ressurge na vida dele, este fantasma vai ganhando corpo, espírito, memória, tudo vai se intrincando, dificultando a relação com a filha e consigo mesmo. E depois tudo vai ganhando novos contornos. Há um espelhamento. Theo se pergunta: ‘Que pai estou sendo eu, que pai posso vir a ser?’ A filha mora em outro país. ‘Eu vou repetir isso com minha filha e ser como meu pai?’ Não sei se o filme resolve esta pergunta, mas só de fazer esta pergunta já é muito importante”, comenta Braga sobre seu personagem.

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O ator vê Theo como um homem contemporâneo, mas que, ainda assim, precisa aprender a lidar com os sentimentos e acertar as contas com o passado e o pai. “Eu pensaria até para além dos dois homens nesses conflitos geracionais e incluiria a metáfora do novo, do renascimento, da iluminação. O espírito solar da filha vem pra romper essa estrutura, essa linha de ocorrências, de sintomas, em função da renovação. Pai e filho se alimentam nesse drama. A filha rompe, salva

Com trabalhos em ficção (“Jonas”) e documentário (“Alvorada”), Lô Politi é a diretora e roteirista de SOL, no qual aborda assuntos como relações familiares, abandono e reencontros, a cineasta define o filme como universal. “Todo mundo tem uma história com o pai, com o filho, história de família”, explica. É nessa questão que o filme encontra sua força: os laços entre pais e filhos, que se afrouxam e reatam.

SOL descortina aos poucos a relação tumultuada entre Theo e Theodoro, que não se veem há muitos anos. O rapaz, em companhia da filha, se sente obrigado a viajar para se despedir do pai, mas uma surpresa acontece: a saúde do homem melhora, e, agora, que o pai não tem mais onde morar – ele vendera a casa –, o filho terá de encontrar uma saída para isso. 

Ao mesmo tempo, o avô acaba se apegando à neta que não conhecia, o que também revigora a relação entre o pai e a filha. Na investigação da dinâmica entre as gerações de uma mesma família, a diretora e roteirista se aprofunda em questões psicológicas de seus personagens, até culminar num final surpreendente. “Mais que uma história de abandono, esta é uma história de desconexão. A grande história não é a de pai e filho, mas de pai e filha. Ele precisa encarar o abandono e a desconexão com o pai para, ao fim, se reconectar com a filha. Ele precisou passar por tudo isso. A gente acha que está vendo uma história da origem dele, mas, na verdade, ele não está conseguindo se conectar com quem está do lado dele, que é a própria filha. Ele faz com a filha exatamente o que o pai fez com ele.”.

A produtora Eliane Ferreira (“Cine Marrocos”, “Vermelho Russo”), da Muiraquitã Filmes, destaca que o longa é inovador ao trazer um olhar feminino ao universo masculino. “Até pouco tempo, eram homens diretores que contavam histórias de mulheres. E ao final, quem traz a possibilidade de que o homem entre em contato com suas emoções é uma mulher, quer dizer, uma menina. É um filme único por sua forma de revelar o que a separação também provoca no homem, que encara também a dificuldade de retomar a própria vida.”.

Sobre seu trabalho, Ferreira explica que costuma estar muito próxima dos diretores. “Lô preparou muito bem o filme.  Fez um photobook do filme, toda esta preparação ajudou muito. E isso era necessário porque, para o cinema independente, se não for assim, não é possível realizar”, explica a produtora.”

Como cenário, a diretora queria uma Bahia que fugisse das grandes paisagens turísticas, e, para isso, trabalhou com o diretor de fotografia pernambucano Breno Cesar (“Casa”). “Ele vem do sertão profundo de Pernambuco. Então, esta é uma paisagem muito natural para ele, que nunca viu as locações com olhos estrangeiros, com uma estética estilizada. Isso foi muito importante. A nossa parceria foi espetacular.” E, embora rodado na Bahia, esta é uma produção paulista.

Antes das filmagens, SOL passou por um longo processo de amadurecimento e preparação. Além do trabalho com o elenco, Politi e a equipe fizeram uma pesquisa grande in loco, ao estudarem profundamente as  locações e o universo de cada personagem, com muita antecedência. “A gente se preparou tanto que, na hora de filmar, pudemos nos despojar de tudo. Estava tudo tão dentro de nós que tudo acabou sendo muito natural, fluido e intuitivo. Creio que isso está bem impresso no filme.” Além disso, a diretora complementa que a direção de arte foi fundamental na construção de seu longa: “Está também, claro, a serviço desta narrativa. A Mariana Hermann, diretora de arte, também fez o processo de mergulho no universo local e tudo o que se vê no filme vem dali, daquele universo. Um trabalho minucioso, genial.”.

Com o elenco, não foi diferente. “A gente ensaiou muito, antes, para encontrar o tom. Mas quando se chega no set preparado, a gente fica aberto ao que o set nos dá. E é assim que a mágica acontece. Há muitas cenas do filme que foram assim.”

Politi conta que um dos elementos-chave do filme é o silêncio. Theodoro praticamente não fala, enquanto Theo fala pouco. Já Duda, como uma criança curiosa e inteligente, fala bastante, mas precisa lidar com o não-dito dos adultos. “Escolher um protagonista que fala pouco ou quase não fala, é duro. Rômulo traz naturalmente uma introspecção que é poderosa. Ele dá ao personagem a natureza dos conflitos internos e a gente entende isso, entende os motivos do personagem. Sem contar que a troca dele com o Everaldo e com a Malu foi incrível. Ele foi estabelecendo uma relação com eles muito interessante, pois também precisava se isolar, para o bem da história, e se aproximava na hora certa. Ele tem uma inteligência emocional muito rara.”

SOL será lançado no Brasil no primeiro trimestre de 2022, pela Paris Filmes.