Baseada no livro de Thomas Savage, a obra se passa em 1925, na cidade de Montana, oeste dos Estados Unidos, e conta a história de Phil (Benedict Cumberbatch) e George Burbank (Jesse Plemons), irmãos que tiveram que assumir os cuidados de um rancho. A amizade entre eles começa a ficar estremecida quando George passa a se relacionar com Rose (Kirsten Dunst), que mora com o seu filho Peter (Kodi Smit-McPhee).

A aclamada diretora e roteirista Jane Campion retorna aos trabalhos com esse faroeste fora do comum que se aprofunda sem medo, na vuneralbilidade de seus personagens.

Phil é o reflexo de uma criação machista que o tornou uma figura difícil, que precisa provar frequentemente sua masculinidade. Seja através de grosserias proferidas aos quatro ventos ou no ataque de qualquer coisa que seja sensível ou feminina demais, como o simples ato de tomar banho em uma banheira.

Ao contrário do irmão, George é robusto, gosta de se vestir elegante e possui uma maior sensibilidade em lidar com as pessoas. Por essa diferença entre personalidades, os irmãos ficam cada vez mais distantes, mesmo dormindo no mesmo quarto, mas quem parece sofrer mais com isso é Phil, que desconta sua raiva em provocações à nova esposa de George, Rose.

Crítica – Ataque dos Cães

A mulher é a personificação dessa distância entre os irmãos e aproxima Phil ainda mais da solidão que o persegue desde quando perdeu o amigo e mentor Bronco Henry, que o ensinou tudo o que sabe sobre ser “macho”. Pensando que Rose possui interesse nos bens do irmão, Phil não precisa se esforçar muito para fazer da vida da mulher um verdadeiro inferno.

A presença de Peter, o filho de Rose, parece despertar fortes lembranças de passado de Phil, mesmo ele tendo tratado o garoto hostilmente no início por seu comportamento delicado e reservado. Essa interação diz muito mais do que qualquer diálogo, entrelinhas fica claro que Bronco foi mais que um amigo e mentor, mas um amante.

Apesar de ter sentido uma proximidade por Phil, Peter ama a mãe e já havia sentido na pele as crueldades que o cowboy cometia. Por isso, antes que perdesse Rose para o mesmo caminho que o pai, preferiu tomar uma atitude e assim contribui para um plot twist sem alarde, em sincronia com os eventos anteriores.

O filme é uma verdadeira e fascinante aula de construção de personagens e aposta na vulnerabilidade para expor o melhor e pior de cada um deles.

Um filme feito por mulheres incríveis que colaboram para uma experiência visual única como a fotografia Ari Wegner que enaltece as paisagens da Nova Zelândia (lugar emn que foi gravado) o figurino de Kirsty Cameron que é conveniente com a personalidade de cada personagem. Uma sequência de qualidade que reforça a potência da direção de Jane Campion que usa o close nos detalhes em cena para reforçar o enredo. Essa junção faz de Ataque dos Cães um dos favoritos na corrida ao Oscar 2022.

Benedict Cumberbatch em uma das melhores performantes de sua carreira consegue provocar repulsa e empatia em uma mesma cena apenas com a mudança em sua feição e gestos. A figura de um homem repulsivo, solitário e reprimido toma forma desde o primeiro segundo do ator em cena. Destaque para as cenas sozinho em que se banha de lama na beira do rio.

Forte atuação também a de Kirsten Durstn, uma coadjuvante extraordinária que alavanca a anrrativa e é um fator primordial na construção de outros 3 principais personagens da trama: o marido, o cunhado e o filho.

Mais do que uma trama sobre masculinidade tóxica, Ataque dos Cães é uma história triste sobre solidão, vingança e tradição.