Vivendo em uma linda cidadezinha aninhada em um vale da Floresta Negra, Anke (Anke Bak) oferece a si mesma uma curta viagem pela estrada da memória: alguns dias de férias no campo à beira-mar com sua filha Theresa (Theresa Bak), onde a família morava há muito tempo e onde alguns de seus parentes ainda residem.

Um lugar que mudou muito (o que antes era um pequeno caminho na floresta agora é uma grande estrada asfaltada, as velhas cabanas perto da praia foram substituídas por casas de férias luxuosas) e que Anke acredita também sentir falta de outra pessoa: seu filho, Max, que afirma estar preso em Hong Kong devido aos protestos pró-democracia, mas na realidade ele às visita há três anos, como apontado por sua irmã Theresa que é menos indulgente ou talvez mais realista do que ela mãe discretamente preocupada.

E assim Anke abandona sua posição neutra, seu tédio e sua tristeza flutuante, e decide ir à Hong Kong, onde silenciosamente colide com um mundo muito diferente do que está acostumada. Em busca de um encontro inofensivo com o filho, ela viajará sozinha em uma viagem iniciática onde aprenderá a se compreender, por meio de uma investigação psicológica da jornada de vida de seu filho. Para ela, este é o início de uma nova história de paz.

Madeira e Água nunca sai da perspectiva de Anke. Ela é uma testemunha silenciosa do mundo, mas conforme o desempenho magnífico de Anke Bak se desdobra, esse olhar persistente captura as pequenas dúvidas que fragmentam seu conhecimento do mundo. Ela cresce fora dessa concha organicamente por meio da interação com as pessoas que encontra em suas viagens – um médico, um ativista, um adivinho e o concierge de seu hotel. As palavras raramente vão além do superficial no início, mas as incertezas não ditas são claras, e quando Anke finalmente consegue expressar seus medos, eles parecem mais orgânicos do que artificiais.

A exploração do roteiro da depressão e da ansiedade através das idades e culturas se mostra especialmente comovente, pois a linguagem que Anke usa e aceita sobre sua saúde mental revela sua crescente compreensão e aceitação de uma vida para a qual ela não havia criado espaço até agora..

Escrito e editado pela diretora, Madeira e Água lança um olhar simpático sobre os laços familiares e é uma calma exploração do espaço ocupado pelo amor materno. Um filme cativante na fronteira entre o documentário e a ficção, e que esconde nas suas aparências humildes um sentido de atmosfera muito aguçado.

Filme visto na 45º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2021.