“Bacurau” aterrissou em 290 salas de 83 cidades brasileiras em 29 de agosto. Quase três meses depois, segue em cartaz em 30 delas. A longa permanência é feito raro na era do streaming. Aos 110 mil ingressos do primeiro fim de semana, outros 610 mil se somaram. No último fim de semana, 3,5 mil pessoas viram o filme.

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E sobre esse sucesso que conversamos com o ator, Thomas Aquino, coadjuvante em filmes como Praia do Futuro (2014) e integrante do elenco de séries, tais como 3% (2016-), agora tem seu primeiro papel de destaque, como Pacote, ou Acácio, em Bacurau.

O longa que conta a história de um povoado do sertão de Pernambuco, que some misteriosamente do mapa. Quando uma série de assassinatos inexplicáveis começam a acontecer, os moradores da cidade tentam reagir. Ele comentou como surgiu o convite para fazer parte do elenco e a importância do longa na sociedade atual:

Como surgiu o convite para o papel? Você teve algum tipo de preparação antes?

O convite surgiu aos cinco minutos do segundo tempo, tinham três atores escalados para fazer o personagem mas nenhum deles pôde por questões de trabalho,  ai depois fiz um Selfietape, onde você faz o teste em frente a uma câmera, isso em fevereiro de 2018, quando estavam prestes a começar as gravações do filme. Depois fizeram um brainstorm para saber que atores poderiam ser selecionados para outro teste e ai surgiu meu nome na mesa.  Me mandaram o texto de uma das cenas. eu enviei o vídeo teste de Curitiba, numa terça e na quinta-feira já falaram que eu estava dentro do projeto, pois tinham gostado do meu teste. Na sexta-feira eu já estava em Recife, no sábado já encontrei o Kleber e o Juliano, diretores do filme, e na segunda-feira eu já estava em palheiras, pronto para começar minha preparação para gravar. E a preparação já estava acontecendo antes com outros atores já selecionados e eu tive umas duas semanas e meia para me organizar junto com Leonardo Laque e Amanda Gabriel que foram os preparadores do elenco e enquanto isso vivenciando algumas coisas na cidade. Pesquisei muito questões de olhares, porque eu sempre falo que o nosso olhar é a janela da alma e meu personagem foi todo construído nisso, então foi muito bom estar em Palheiras antes das gravações.

O que você e seu personagem tem em comum?

Na verdade o que a gente tem em comum é a questão de se colocar à disposição do outro, se colocar em preparo para defender o outro. Eu tenho muito disso com as pessoas que eu gosto, adoro levantar uma bandeira para defesa e pra resistência. Eu sou muito da minoria e eu espero um dia que a gente não vire maioria, mas que a gente se equalize no universo, porque eu não acredito que tenhamos que ser maior e superior a ninguém. No caso eu sou a favor da minoria, porque ela está abaixo e enquanto puder estarei lutando para que haja igualdade.  O que eu tenho em comum com o Acácio é essa questão de força e de luta. Deus me livre arma, não gosto e jamais mataria um ser vivo, mas estaria disposto a estar na frente do campo de batalha por essas pessoas.

Você imaginou que o filme tomaria a proporção que tomou?

Sim, em partes, porque eu já sabia que um filme de Kleber e Juliano juntos, que são dois grandes renomados diretores da atualidade seria grandioso. Uma coisa que eles sempre fazem é trazer esse cunho social político muito forte em suas produções. Desde ‘O Som ao Redor’, ‘Aquarius’ e agora ‘Bacurau’, os curtas-metragens também: ‘Recife frio’, ‘Critico’ que é um documentário que fala de crises sociopolíticas, e eu acho isso muito interessante, porque nós como artistas precisamos levar isso a sociedade para que possamos debater e discutir, e para que as pessoas tenham acesso a essas informações pensantes. Por isso, eu sabia que seria um filme grande, polêmico, porque o roteiro era muito interessante desde o início, mas nessa proporção megalomaníaca, de ser universal, no sentido internacional realmente eu não imaginava. Eu sabia da possibilidade de ir para o Festival de Cannes, mas o filme foi além, e rodou em vários festivais, pessoas do mundo inteiro ainda estão falando comigo me parabenizando por Bacurau.

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A gente pode lutar e  resistir enquanto sociedade porque nós temos forças unidos.

Com todas as referências históricas e crítica sociais que o filme traz, você acredita que o público conseguiu captar a mensagem?

A arte cada um entende de uma certa maneira, cada um entende da forma que quiser e capta o que quiser através daquela mensagem ou daquela pintura ou daquela música, mas enfim, eu acredito que o filme é bem claro e objetivo, tem um roteiro que foi escrito a 10 anos atrás, mas como eu falei os trabalhos de Kleber e Juliano sempre tem um cunho social político muito forte, abrange muito essa temática, e eles foram bem claros em várias questões: Raciais, machismo, inclusão social. Então o filme tem vários signos, e acho que esses signos estão ali para serem vistos. Mas ninguém é obrigado a ver as coisas que estão ali, cada um capta o que quer. mas pelo feedback que eu tenho recebido, acredito que muitas pessoas estão recebendo a mensagem certa.

Qual você acha que é o melhor caminho para que Bacurau não se torne uma realidade cada vez mais próxima?

Eu acho que a escuta e o diálogo são fundamentais, eu rezo muito pra que chegue um dia que a gente possa resolver tudo através do diálogo, acho que seria muito civilizado se isso acontecesse, a arte de saber escutar o outro. Porque eu acho que esse é o maior defeito do ser humano, nós temos uma coisa chamada ego que pode ser usada para o bem e para o mal, mas pelo que eu vejo hoje em dia, o poder transforma esse ego. O ser humano tem um vício, uma história com o poder que é impressionante, a gente vê isso nos nossos livros de história e se esse o diálogo e a escuta fosse nossa maior potência tudo seria diferente, o fato de simplesmente respeitar o próximo. Pra mim, pra Bacurau não se tonar uma realidade, só precisava do respeito, entender o outro, escutar, ter empatia, isso pra mim seria fundamental nos tempos atuais. Lembrando também que a comunidade de bacurau, é uma utopia, tem uma cena especifica que faz a gente refletir, em que a personagem Sandra é levada a força por alguns homens, então as amigas dela de trabalho começam a gritar por ajuda e nenhum morador se movimenta. Isso acontece muito, hoje em dia, essa questão das pessoas fecharem os olhos para coisas que acontecem na frente delas. Então como a gente pode deixar isso de lado, e não transformar em uma realidade é resumidamente através do respeito.

Como você vê o cinema nacional hoje?

Eu acredito que estamos com vários filmes nacionais sendo lançados, que com certeza são frutos de fundos governamentais do governo anterior. Não do temer, mas sim do governo Dilma que tinha projetos e leis de incentivo muito mais a frente do que esse novo governo. O documentário,  ‘Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar’  de Marcelo Gomes, ‘Divino Amor’ de Gabriel Mascaro, Bacurau, enfim vários filmes nacionais que foram lançados esse ano e que merece destaque. E apesar de estarmos vivendo esse retrocesso com o fechamento da Ancine e outros fundos governamentais, a gente vive essa questão crescente em lançamentos de filmes nacionais de vários gêneros. Os filmes estão sendo lançados, as cabeças continuam pensando e os diretores estão sempre em projetos que fazem a gente refletir. Eu vejo o cinema nacional muito forte, muito resistente e isso é muito importante que não morra.  A gente sempre vai se erguer e eu espero um dia que não precisemos lutar pra se erguer e sim que seja algo natural.

Como foi trabalhar com a veterana, Sonia Braga?

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 Só o nome Sonia Braga já é incrível, ela é uma mulher fantástica, uma deusa, tem muita experiencia. É uma pessoa que só de estar presente no mesmo ambiente que você, já encanta a todos com tanta força que ela possui. Muito simpática, extrovertida, muito tudo, é de uma generosidade incrível e muito atenciosa ao trabalho dela. Apesar de não contracenarmos nesse filme a gente conviveu durante três meses em Palheiras, tomando café da manhã, almoçando, jantando, sempre no mesmo hotel, então pude aprender muito com ela, inclusive com o Udo Kierque é um ator internacional, de Hollywood, que também sou fã, tem uma gama de experiencia exemplar. Em uma mesa de jantar pude estar no meio dos dois ouvindo as conversas e aprendendo mais sobre cinema. A Sônia sempre contagiava o set e eu aprendi muito só observando ela em cena. eu fazia questão de estar por trás das câmeras vendo ela atuar, observação é aprendizado, então trabalhei com ela nesse sentido e foi muito importante pra mim.

Como foi a recepção dos moradores de Palheiras quando vocês chegaram para as filmagens?

Foi incrível, na verdade a gente se sentiu muito em casa, muito bem acolhido, acho que isso é um característica muito forte nordestina, eu sou pernambucano, meu pai é cearense, minha mãe paraibana, então o sangue nordestino é muito forte em mim, e fora que eu ja viajei por várias cidades desse sertão nordestino e pude conhecer muitas pessoas. No Ceara onde meu pai nasceu por exemplo, no interior, em uma cidade chamada Iguatu, todo mundo que no pouco que te conhecia já chamava pra entrar em casa, tomar um café, comer um bolo, mesas fartas apesar de não terem muito. Então não fizeram menos em Palheiras, sempre receptivos, e nosso carinho foi tão grande uns com os outros que ao final das gravações algumas pessoas falaram que o que doía era a gente indo embora e eles ficando. E isso me tocou de um jeito que realmente eu chorei, abracei todos. Eles ficaram muito apegados e sentiram muito quando fomos embora. Mas a vida é isso, a gente aprende muito um com o outro, e é essa troca generosa, de amor legitima que me motiva a fazer arte, que a gente possa trocar com todas as pessoas e viver bem socialmente sempre.

Para você, qual a mensagem mais importante que Bacurau transmite?

Resistencia, especialmente nos tempos atuais. A gente pode lutar e  resistir enquanto sociedade porque nós temos forças unidos. É aquele velho jargão ‘Unidos Venceremos’, e isso é verdade, essa fala de resistência que o filme traz, de viver numa sociedade coletivamente e estar tudo bem, essa é a mensagem maravilhosa, porque Bacurau, é uma cidade pacifica. Um exemplo é que as armas estão no museu, como conteúdo histórico e não nas mãos das pessoas, todos vivem tranquilamente. Uma trans é a vigia da cidade, uma matriarca que cuida ali de todos, não é mais o patriarcado que domina tudo. As mulheres tem força, tem voto, tem vida e todos estão bem com isso. Acho que isso é viver em coletivo. sem opressão e sem desmoralizar ninguém. E quando chega os opressores, a cidade começa a sofrer e resiste junto, então elas partem para uma violência como última opção, só pra não serem extinguidas. A mensagem mais importante de Bacurau é essa, a gente pode viver coletivamente bem com as diferenças das pessoas, porque todos somos diferentes.