Crítica por Cauê Petito

O cineasta James Wan é visto por muitos como um mestre do terror. É responsável por ajudar a definir, para o bem e para o mal, os filmes de terror do cinema comercial norte-americano, mais de uma vez: em 2004, com seu Jogos Mortais para a Lionsgate; em 2010, com o terror de assombração Sobrenatural, para a Blumhouse; e em 2012, para a Warner Brothers com seu Invocação do Mal. O diretor se provou como um diretor rentável e de confiança para grandes blockbusters, passando no teste com Velozes e Furiosos 7 e elevando o escopo com o excêntrico Aquaman.

A alcunha atribuída ao diretor é discutível, em grande parte pelos mesmos motivos dos sucessos de Wan em seus Blockbusters (ao passo em que até mesmo suas produções de terror para a Warner se tornaram, à sua própria maneira, blockbusters do terror, originando todo um universo de produções): assim como nos filmes estrelados por Vin Diesel e Jason Momoa, suas produções de terror se revelam como grandes “agrada-público”. Tais produções se vestem de uma roupagem estilística que evoca os grandes filmes de terror do gênero, mas em sua essência são filmes muito controlados para agradar ao público, com uma execução competente, mas claramente massificada, disfarçada de um terror mais classudo.

Diante dessas características, Wan sempre foi competente no espetáculo, particularmente na decupagem dos planos e seu dom para composições de misé en scene que, no exemplo de seus filmes de terror, sempre conseguiu nos situar no espaço e trabalhar as construções de expectativa dos sustos e dos suspenses que vemos em quadro, fazendo filmes muito eficazes. Dessa refinação, no entanto, parece vir esse enlatado, essa fórmula, ao ponto em que todas as produções do universo de Invocação do Mal se parecem muito umas com as outras, uma espécie de “universo Marvel” dos filmes de terror. No mais, Sobrenatural permanecia como seu filme mais interessante, mesclando uma afinidade mais trash e um cinema de atrações com muito gelo seco, a um terror de assombração mais tradicional.

Photo: Warner Bros. PIctures

É com grande surpresa, então, que Maligno represente esse grande filme fora da curva na carreira do diretor, um filme tão transgressor nessa noção de ser um terror lançado em circuito comercial por um grande estúdio, uma mistura tão agressiva de estilos e gêneros cinematográficos, que fica a impressão de que os últimos filmes de Wan fazem parte de um elaborado plano para que o cineasta tivesse liberdade para realizar este novo filme. Os trailers de Maligno o vendem como mais um desses filmes de terror muito próximos de Invocação do Mal, “uma nova visão de terror por James Wan”, e é engraçado imaginar a equipe de publicidade tentando montar o péssimo e genérico trailer, tentando esconder ao máximo o real filme por trás de Maligno – um filme que é tudo, menos comercial.

Em Maligno, acompanhamos Madison (Anabelle Wallis) em mais uma das vezes onde apanha do marido. Após mais um desses incidentes, Madison começa a ser assombrada fisicamente e por visões de assassinatos enquanto eles ocorrem.  O desenrolar da trama é intencionalmente mirabolante, mas Wan utiliza as assombrações mais como uma oportunidade de trabalhar diversos subgêneros do terror, do slasher ao terror de assombração, do body horror que o lançou no cinema até o Giallo, como é vendido. Se o filme que vem a cabeça com a sinopse nos lembra de filmes como Os Olhos de Laura Mars (1978), de Irvin Kershner, o filme procura evocar obras como Phenomena (1985) e Prelúdio para Matar (1975), do mestre Dario Argento.

No papel, ouvimos esses adjetivos e pensamos que – até mesmo por ser um filme da Warner pós-Invocação do Mal – veremos a mesma história de “produto enganoso” já mencionada: algumas iluminações de vermelho primário tomando o cenário, uma luva preta jogada aqui e ali e fim, se apaixonando muito mais pelo “vestuário” do filme do que pelo que se transcorre nas ações. Mesmo a criativa arma do vilão no filme ameaça, de primeiro, ser apenas uma mais dessas referências. Maligno parece ameaçar se tornar apenas esse pastiche de evocações a diferentes tipos de terror, porque, por muito tempo, Wan se encontrava nesse voyeurismo, o que prepara a nossa expectativa para mais um desses exercícios fetichistas.

Quando o filme realmente abraça a insanidade, resultando num terceiro ato inacreditável e sem-vergonha positivamente, o que se têm são algumas das mais inacreditáveis sequências do cinema comercial de terror dos últimos tempos. Wan não mentiu quando disse que este era um filme feito para os fãs de terror: as risadas e incompreensão por grande parte do público despreparado serão garantidas – e até mesmo alguns fãs do gênero podem ser pegos desprevenidos.

O feito é tanto que até mesmo Wan deve ser consciente sobre esse cinema de voyerismos, que começou lá em seu Jogos Mortais com frases como “ele gosta de assistir suas vítimas”, referindo-se ao icônico John Kramer, seu Jigsaw. Se aquele primeiro filme, como todo bom Torture Porn, nos colocava diante dessa ânsia e conflito moral por assistir às mutilações, aqui é tudo bem literal, já que assistimos, junto das visões da protagonista, à estes exercícios de gênero que o diretor trabalha, sempre forma inventiva e divertida. O que poderia ser apenas este exercício, no entanto, se elava com as reviravoltas finais.

Photo: Warner Bros. PIctures

Se o comprometimento com o drama um tanto brega dos personagens que habitam Maligno seria encarado como tolice pela maioria dos cineastas, Wan inteligentemente se entrega ao melodrama característico de várias produções do próprio Giallo e nos concede um mundo estilizado. Muitas produções fazem essa estilização na direção de arte e figurino, mas associam nossa crença ao drama de seus personagens pelo “realismo”, por um tradicionalismo da dramaturgia.  O que separa, novamente, o voyeurismo da consumação, é que Wan têm consciência e parte do princípio que o “real” é tudo que é mostrado na tela, tudo que o filme nos diz. Se ele e o filme se devotam à essas ideias, acreditamos nela como o real.

Assim, todas as atuações de Maligno são canastronas. São exageradas, como as situações, a trilha sonora que passeia por sintetizadores e músicas eletrônicas que evocam esse terror dos anos 2000, com um rock industrial eletrônico (a montagem onde o vilão confecciona sua arma é gloriosa). O que difere Maligno de produções modernas que prestam um exercício formal ou de homenagem a esses filmes do final dos anos 70/começo dos 80 é que não existe sarcasmo ou ironia aqui. Apesar de alívios cômicos, deve ser sentida no ar a fome de parte da audiência por uma piadinha metalinguística, por uma piscadela para a tela que nunca vem, por que Wan acredita no que mostra para nós em Maligno. Isso é o real. Até farsas podem ser reais.

Com Maligno, James Wan finalmente sai da pose. Essa pose é o que eventualmente tornou os filmes da serie invocação do mal num exercício de vai-não-vai, mas aqui Wan se compromete e se entrega à farsa até que ela se valide, como vemos nos momentos finais da obra, emocionante e catártico, num filme que é um fenômeno poucas vezes visto nesse terror comercial que é farsesco porque não acredita em si mesmo, diferente de Maligno, que se diverte nos voyerismos fílmicos mas consuma a transa com gosto.


Maligno (2021)

Título: Malignant (Original)
Ano produção: 2021
Dirigido por: James Wan
Estreia: 9 de Setembro de 2021 ( Brasil )
Duração: 111 minutos
Classificação: 16 – Não recomendado para menores de 16 anos
Gênero: Mistério/Terror/Thriller
Sinopse: Paralisada por visões chocantes de assassinatos brutais, Madison logo descobre que seu tormento irá piorar quando percebe que esses sonhos lúcidos são realidades.