Texto por Guilherme Silva

Depois de três anos de seu filme de estreia muito aclamado pela crítica e pelo público e após uma série de adiamentos por conta da pandemia que quase cancelou a exibição do filme na telona, John Krasinski chega aos cinemas no dia 22, de julho, com a aguardada continuação de Um Lugar Silencioso.

Confesso aos leitores que o primeiro filme da franquia não me cativou tanto com a sua atmosfera de suspense e tensão como vi cativar a outras pessoas, isso em partes, porque tive a interpretação equivocada do trailer, de que o longa trataria exclusivamente de um terror puro envolvendo monstros, o que já foi subvertido nos primeiros 10 minutos.

Digo isso como uma forma de aviso aos que forem assistir a Um Lugar Silencioso 2 esperando algo nessa mesma linha, saiba que definitivamente não se trata de uma trama focada unicamente no terror. Possuem sim algumas pitadas do gênero, mas estamos falando basicamente de um suspense pós-apocalíptico com algumas nuances de ação, o que em nenhum momento tira a qualidade e valor da obra.

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Um Lugar Silencioso 2/ Paramount

Um Lugar Silencioso 2 se inicia com um pequeno flashback, quando somos apresentados ao início de tudo, ou como é falado no longa, o Dia 1. Quando as criaturas misteriosas que vimos no primeiro filme chegam à terra. E aqui já temos o que eu considero o primeiro acerto do filme, que diferente de outras sequências do gênero, como Cloverfield – O Monstro (2008), o diretor e roteirista John Krasinski não se preocupou em explicar o porquê do aparecimento dos monstros, mesmo sendo autoexplicativo pelo trailer. Ele não se propôs em investir em uma prequel da história contada pelo seu antecessor, o que são duas coisas que raramente costumam ter sucesso nesse tipo de produção.

Em vez disso o longa investe de forma contínua na trajetória da família Abbott, Evelyn Abbott (Emily Blunt), Regan Abbott (Millicent Simmonds) e Marcus Abbott (Noah Jupe), após os acontecimentos fatais do primeiro filme, por um mundo desconhecido e pós-apocalíptico onde, aparentemente, as criaturas atraídas pelo som não são a única ameaça a ser enfrentada.

Algo que me incomodou muito no primeiro filme e por muitas vezes tive percepção que fosse simplesmente um gosto pessoal e não com a obra em si, foi a imersão na história através da proposta do ‘’silêncio absoluto’’.

Ao contrário de outros filmes como O Homem nas Trevas (2016) que trabalha basicamente com a mesma premissa, da maioria das cenas serem extremamente silenciosas com a intenção de causar uma sensação de tensão e suspense, acredito que a primeira parte da franquia não soube se utilizar desse bom artificio narrativo, pois o silêncio está lá, a ameaça também e acompanhadas de uma excelente mixagem de som, contudo as situações criadas em cada cena ou na história como um todo são previsíveis ou algumas vezes não têm a força necessária para nos deixar com aquela sensação de aflição.

How to stream A Quiet Place 2 on Paramount Plus
Um Lugar Silencioso 2/ Paramount

Já em Um Lugar Silencioso 2 através do design e mixagem de som que incrivelmente conseguiram deixar ainda mais impecáveis, e pelas cenas de ‘’ação’’ que apresentam situações que colocam os protagonistas em risco, é possível sentir e absorver com maior presença essa tensão.

Contudo, isso acontece de forma mais pontual e menos constante como ocorre no primeiro filme, muito pelo fato da história aqui se passar em um mundo aberto e ter espaços para novas ameaças, além das criaturas, e também talvez por uma escolha do diretor, o que pode incomodar alguns entusiastas da obra. Porém, que não o transforma em um filme padrão com vários clichês, pois as cenas são bem construídas e mesmo com ideias já batidas, narrativamente mostra alguns aspectos de originalidade.

E falando sobre um pouco mais sobre essa ideia de ‘’mundo aberto’’ a escolha em investir uma narrativa que explore mais a fundo essa terra pós-apocalíptica, ao meu ver, é acertada, pois cria novas possibilidades e assim permite que essa continuação não seja mais do mesmo.

No entanto ao mesmo tempo que o roteiro agrada por um lado nesse quesito, ele decepciona em outro por não explorar com mais profundidade esses novos pontos criados, de uma forma até apressada ele prefere por focar na maioria do seu tempo na construção do arco principal da trama, o que de certa é um pouco frustrante e deixa a sensação a quem assiste de um potencial perdido.

Para não dizer que não há aprofundamento em outros arcos, o roteiro em determinado momento faz uma pausa para a apresentação de Emmett, que apesar de ser bem inscrito e interpretado pelo ótimo Cillian Murphy (Peaky Blinders) passa a impressão que ele é inserido na história mais para cumprir uma função narrativa de um companheiro de jornada, do que de fato um personagem que acrescente algo novo a trama.

Contudo, como dito anteriormente o principal foco do roteiro aqui é na construção e na conclusão de uma situação ‘’x’’ sendo apresentado para nós desde o começo da trama, e nessa parte pode ser que gere uma certa discussão e divisão de opiniões, não tão acaloradas como paredão de Gil e Juliette ou qualquer filme do diretor Lars von Trier, mas sim porque, alguns podem alegar que assim como no primeiro filme o final de Um Lugar Silencioso 2 seja algo fora do tom ou desconexo com todo o resto da história.

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Apesar de não ser algo que estrague a experiência isso realmente acontece no primeiro filme da franquia, pois a cena final apresenta situações que fogem totalmente do tom de toda a construção da sua trama, então passa a sensação de estranhamento parecida com qualquer cena espalhafatosa de fuga de Velozes e Furiosos, é algo que destoa e não se encaixa com tudo aquilo que foi mostrado anteriormente no longa.

Em Um Lugar Silencioso 2 acontece totalmente o contrário, pois desde o início mesmo que nas entrelinhas a história já nos entrega pequenos detalhes e pistas, algumas inclusive já mostradas desde o longa anterior, que constrói de forma plausível e coesa sua conclusão, que mesmo não sendo a melhor ou mais inventiva, não nos causa uma sensação de que aquele final não pertence aquela obra.

Em veredito Um Lugar Silencioso 2 é bom e se equipara em qualidade com seu antecessor, algo que por si já deve ser destacado em vista de tantas sequências ruins que são lançadas anualmente, e que em alguns momentos pontuais conseguem até ser melhor que o primeiro filme.

Mesmo que tenha alguns deslizes na construção da história que não se aprofunda em desdobramentos que agregaria a sua narrativa e tornaria o filme melhor, tem um bom arco, ótimas interpretações, excelentes pontos técnicos e um bom desfecho, e por mais que não seja necessário, deixa aberto a possibilidade a produções futuras, mas sem correr o risco de trazer apelações caça níqueis ou mais do mesmo.

Um Lugar Silencioso: Parte II, estreia nos cinemas em 15 de julho.


Ficha técnica: Um Lugar Silencioso 2

Um Lugar Silencioso - Parte II ganha pôster nacional; confira! | Arroba Nerd
  • Título Original: A Quiet Place Part II
  • Duração: 105 minutos
  • Ano produção: 2019
  • Estreia: 19 de março de 2020
  • Distribuidora: Paramount Pictures
  • Dirigido por: John Krasinski
  • Classificação: 16 anos
  • Gênero: Suspense, Fantasia
  • Países de Origem: EUA