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Cinema brasileiro: Crítica | O Homem do Sputnik (1959)

Caso esteja a procura de um filme leve e engraçado com referências ao cenário brasileiro e mundial no final dos anos 1950, O Homem do Sputnik (1959) é um achado. Ao contrário do que até hoje se pensa sobre chanchadas, o longa é inteligente e original. Satírico e extremamente político a partir de um humor verdadeiramente brasileiro, arranca risadas sessenta anos depois.

O grande acontecimento acontece na roça: a queda do Sputnik. Logo nos primeiros planos, conhecemos os protagonistas do filme: Anastácio (Oscarito) e Cleci (Zezé Macedo). Cleci com sua voz estridente e forte interesse pela “higui sociéti” constitui, com Anastácio, um ingênuo “caipira”, uma dupla cômica e fácil de acompanhar. No entanto, o mocinho e a mocinha da história não são Anastácio e Cleci, mas Nelson e Dorinha, o casal que os acompanha na jornada do Sputnik. Nelson faz parte de outro núcleo dessa narrativa que se mantém dinâmica e divertida a partir dos diferentes focos que contém.

O jornalista de fofocas tem o sonho de ser levado a sério em sua profissão, e, a partir do interesse particular no Sputnik, acaba auxiliando o casal despistado.
A apresentação de cada nacionalidade após a notícia da queda do objeto em meio à corrida espacial é o ponto forte do filme. Nela, há êxito da obra em transformar em sátira o humor, na época, julgado como “cópia” do americano.

Brincando com estereótipos, o filme chega a empoderar o brasileiro ignorado pelo resto do mundo, tornando-o protagonista no meio da Guerra Fria. Os realizadores mostram que estão cientes de que o brasileiro é julgado como ignorante e sem acesso aos bens de consumo do Primeiro Mundo, e que os habitantes deste mal sabem nos localizar. “Acho que já vi esse nome em uma saca de café!”, diz um dos americanos que tentam descobrir se o Brasil fica na Malásia ou em Buenos Aires.

43ª Mostra Internacional de Cinema - Filme - O Homem do Sputnik

Expondo a ignorância do mundo perante o Brasil, os realizadores dão o troco, apresentando russos como carecas cruéis e padronizados; americanos como abobalhados viciados em Coca-Cola (sendo um deles Jô Soares em seu início de carreira!); franceses como colonizadores orgulhosos cuja única arma é “l’amour”, representados pela icônica atriz Norma Bengell parodiando a estrela Brigitte Bardot.

Além das risadas, O Homem do Sputnik também dá uma sensação de satisfação à medida que todos os ciclos narrativos se fecham de maneira proveitosa para os protagonistas. O jornalista consegue seu furo e maior destaque na carreira, o casal protagonista conseguiu ter um gosto da high society, e, por fim, nenhuma das grandes potências conseguiu o que queria.

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