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Crítica | ‘Tudo Pela Arte’ – a obsessão pelo sucesso

Texto por Giovanna Thomazini

Lançado nesta quarta (26) nas plataformas digitais, ‘Tudo Pela Arte’ chama a atenção para uma rede de mentiras dentro do mundo da arte

Baseado em um romance de 1971 do escritor de crimes Charles Willeford (“Miami Blues”), “Tudo Pela Arte” traz James Figueres (Claes Bang), um elegante crítico de arte visto pela primeira vez dando palestras a um grupo de turistas americanos em Milão. A pintura abstrata que ele mostra tem uma história trágica de um artista que sobreviveu ao Holocausto — ou assim diz James, até que ele revela que a história é mentira e ele mesmo a pintou (na palestra ele deixa claro que ser crítico tem tudo a ver com saber como vender aquela peça baseado em histórias, mentiras bem contadas e convencimento emotivo). Acreditaram nele da primeira vez? A história dele deu significado à pintura e ao valor monetário? Esse é o poder do crítico.

James fuma muito e aparentemente é viciado em remédios (o que incomoda muito Berenice) e por falar em Berenice – que nada entende de arte, mas se interessa sobre o claro entendimento de James sobre o assunto – ele a conhece em uma de suas “aulas” onde também vende seu livro. Eles dormem juntos no mesmo dia e ele a convida para passar o fim de semana na casa de um famoso comerciante e dono da galeria Cassidy –  interpretado por Mick Jagger, ele é referido como “marchand”, uma palavra francesa para não só àquele que compra e vende objetos artísticos mas também a um tipo de prestador de serviços que atua na divulgação do artista para museus, galerias, e colecionadores. A relação entre Berenice e James desde o início fica clara como sendo algo casual e divertido, sem apegos ou compromissos para ambos.

A proposta de Cassidy é feita logo que chegam a cabana, acontece que o lendário artista Jerome Debney está escondido em uma cabana de hóspedes na propriedade de Cassidy, muitas décadas depois de um incêndio consumir a obra de vida de Debney e ele desaparecer do cenário mundial. Cassidy está convencido de que o secreto Debney está pintando novamente ou talvez nunca tenha parado de pintar e simplesmente parou de compartilhar seu trabalho com o mundo.

Um rico colecionador de arte (Mick Jagger, à esquerda) tem uma proposta para um crítico de baixa sorte (Claes Bang) em “Tudo Pela Arte”.

Cassidy da a James a oportunidade de conhecer o grande artista e marcar uma entrevista, que seria o furo cultural do último meio século e ressuscitar sua promissora carreira. Tudo o que James tem que fazer em troca é descobrir uma maneira de roubar uma obra original do artista.

 Vale ressaltar a performance impecável do elenco. Jagger, em seu primeiro papel depois de 20 anos, entrega uma atuação tão natural e espontânea que você quase se esquece quem ele é e passa a acreditar que ele sempre foi Joseph Cassidy. O papel o abraça em todos os sentidos e é extremamente prazeroso assisti-lo na tela.

Berenice parece alguém muito inocente no início, até seu figurino tende a mostrar isso, porém, algo de misterioso e obscuro chama a atenção em suas respostas. Ela se recusa a dizer de onde veio de verdade e talvez até seu verdadeiro nome apesar das inúmeras tentativas de James de querer saber a verdade. Elizabeth Debicki, consegue que sua personagem ganhe mais força e cresça com o desenvolvimento da trama, indo fundo nos sentimentos de Berenice.

A construção dos personagens é muito bem feita, todos eles fazem sentido para o contexto do enredo e seus ciclos são encerrados com proeza. A escolha do elenco com certeza foi o ápice da produção.

Esses desenvolvimentos só servem para aumentar a paranoia alimentada pelo vício em comprimidos de James. Foi realmente pura coincidência que trouxe Berenice em sua vida em um momento tão crucial? Ela está em agindo contra ele junto com Debney, ou Cassidy, ou ambos?

A fotografia do filme sempre em tons azulados e cinzas junto com uma trilha sonora alarmante, passam a sensação de estar preparando o espectador para alguma revelação, sempre com um ar de que ‘algo está errado’, além da iluminação natural que deixa a entender que momentos angustiantes estão prestes a acontecer, principalmente depois da primeira aparição do personagem Joseph que tem uma presença intimidadora e desafiadora, deixando tudo ainda mais tenso em volta.

O artista recluso Jerome Debney (Donald Sutherland) tem interesse paterno na visitante Berenice Hollis (Elizabeth Debicki) em “Tudo Pela Arte”.

Em parte da trama, Berenice explica como antigamente pintar uma mosca em um retrato de alguém significava que essa pessoa estava amaldiçoada, em seguida, uma mosca entra no nariz de James durante o sono após uma decisão duvidosa, juntamente com a sensação de que algo de errado está por vir. O simbolismo da mosca só confirma essa suspeita. As moscas continuam aparecendo para James, e em outros momentos ao ar livre também, sempre em momentos de alta tensão.

A simbologia do azul e das moscas acompanha o filme do início até o fim, desde a direção de arte, até a fotografia. As cenas frias na maioria dos frames fazem valer esse cenário misterioso que o diretor Giuseppe Capotondi, quis mostrar. James também veste azul em uma cena final trágica, dando ainda mais sentido a relação da cor com ambiente frio.

“Tudo Pela Arte” certamente não é o tipo de filme que vai alimentar o público sobre o que está por vir. Se você está disposto a esperar e entrar fundo em sua trama pode ser uma experiência totalmente memorável assisti-lo.

Confira o trailer:


Ficha Ténica: Tudo Pela Arte (The Burnt Orange Heresy)

Diretor: Giuseppe Capotondi
Roteiro: Scott B. Smith
Baseado no romance de: Charles Willeford
Produtores: David Zander, William Horberg, David Lancaster
Produtores Executivos: Sienna Aquilini, Aeysha Walsh, Stephanie Wilcox, Dante Ariola, August Zander, Jon Shiffman, Jonathan Loughran, Peter Touche, Vaishali Mistry, Marie-Gabrielle Stewart, Peter Watson, Aris Boletsis
Elenco: Claes Bang, Elizabeth Debicki, Mick Jagger, Donald Sutherland
Duração: (99 minutos, aproximadamente)
Classificação Indicativa: 14 anos – Drogas Lícitas, Linguagem, Sexo


Plataformas digitais de Aluguel e Compra:
Apple TV (iTunes), Google Play, Microsoft Filmes &TV (Xbox), PlayStation Store
Plataformas digitais exclusivamente para aluguel:
Looke, NOW, Oi Play, SKY Play e Vivo Play

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